QUEM CONTA UM CONTO, REVELA MUITOS PONTOS
TEMA: História, memória e cultura africana e quilombola através da literatura
COMPONENTES CURRICULARES ENVOLVIDOS: História, Arte, Língua Portuguesa e Sociologia.
JUSTIFICATIVA
É importante trabalhar as obras literárias afro-brasileiras e quilombolas porque elas oferecem narrativas que resgatam vozes silenciadas, que resistiram à escravidão e preservaram culturas negras. Essa literatura também dialoga com a história oral das comunidades, ativando memórias coletivas e reconstruindo trajetórias identitárias. Ler literatura afrodescendente contribui para que estudantes negros, especialmente de comunidades quilombolas, experimentem representações positivas de si mesmos. A formação identitária se aprofunda quando crianças e jovens se veem protagonistas de suas histórias, conectando-se a símbolos.
Por isso, nessa segunda SD pensei numa atividade didática com bases em textos literários, pois professor de história também é um leitor. Aqui eu trao um processo mais criacional desse meu momento de pesquisa. Eu busquei textos literários de autores quilombolas em sites de pesquisa, como o Google. Eu já conhecia as obras do autor sul baiano Ruy Póvoas, da escritora carioca Cristiane Sobral, da mineira Carolina Maria de Jesus, também sou leitora de Conceição Evaristo e das obras literárias da Chimamanda Adichie. Porém, o livro Histórias da Cazumbinha e A vida é Roça foram verdadeiros achados nessa minha pesquisa.
Sendo assim, principio apresentando os livros que pensei que poderiam compor a base dessa SD. Histórias da Cazumbinha, de autoria de Meire Cazumbá e de Angie Bordas. Neste livro, as autoras citadas, convidam o leitor a entrar na infância de Cazumbinha, menina de uma comunidade quilombola à beira do rio São Francisco, e a viajar por seus dias de banho de rio, suas subidas em árvores, momentos de degustação de frutas da mata e das brincadeiras. Essa narrativa literária ecoa oralidade, tradição e memória, ao mesmo tempo em que valoriza a vida cotidiana e a cultura das comunidades quilombolas.
Chamou-me também a atenção, a presença de desenhos das crianças da comunidade, as fotos do lugar, tudo isso dá uma dimensão colaborativa e visual à obra. Notei nesse livro uma simplicidade que não diminui a potência da experiência: cada cena pequena torna-se símbolo de pertencimento, identidade e resistência. O livro abre espaço para que crianças negras de origem quilombola se vejam protagonistas de suas histórias, e para que leitores de outros lugares percebam essa vida muitas vezes invisibilizada.
O
segundo livro, Roça é Vida, foi organizado por Viviane Marinho
Luiz.
Nele encontramos ensaios ou textos que abordam a vida rural, a
agroecologia, a cultura popular do campo e, implicitamente, as comunidades que
fazem da roça seu espaço de vida, de ancestralidade e resistência.
O título remete ao valor da vida no campo, à valorização dos modos de existir ligados à terra e ao território. Nesse sentido, o livro conecta-se com identidades quilombolas, comunidades tradicionais e práticas culturais que implicam vínculo com a terra e com o fazer coletivo. Em uma proposta de educação antirracista e multicultural, essa obra amplifica vozes do campo, promove o reconhecimento de saberes rurais e tradições que se contrapõem ao discurso urbano hegemônico. Como tal, funciona como instrumento para repensar currículo, práticas pedagógicas e relações entre cidade e campo, passado e futuro.
Outra obra literária que indico é Itan dos Mais‐Velhos[1], do professor universitário e ialorixá, Ruy do Carmo Póvoas. Nesse livro, encontramos uma coletânea de contos que traz a voz dos mais velhos como depositários de memórias, saberes e experiências vividas, especialmente num contexto ligado à cultura afro-baiana. A escrita do referido professor atrai e imprime uma cadência que parece pulsar com o ritmo da fala oral e do legado, conduzindo o leitor por entre emoções profundas, cicatrizes e belezas. A força da obra reside em dar visibilidade a vidas marcadas por história, por resistência, por tradição, muitas vezes silenciadas. Apesar de alguns apontamentos críticos sobre a pluralidade de vozes entre os mais velhos, o livro amplia a noção de riqueza cultural e empatia intergeracional. Funciona como um convite para escutar, valorizar e aprender com aquelas pessoas cujas histórias não figuram em manuais escolares.
Também indicamos Olhos D’Água, de autoria de Conceição Evaristo. A primeira vez que li essas escrevivências dessa mulher negra fiquei extremamente emocionada e me pus a pensar no olhar de minha mãe. É uma narrativa emocionante em que ela fala com saudosismo da mãe e de como muitas vezes ela não parou para olhar a cor dos olhos da mãe. Relembra fatos da vida pessoal, das lutas e dificuldades tão comuns a muitas mulheres negras.
Conceição Evaristo retrata a vida de pessoas negras – especialmente mulheres – em contextos de adversidade, lutando, resistindo, sobrevivendo e se afirmando. É uma escrita muito poética que combina delicadeza e contundência, revelando a riqueza das micro-histórias que fazem parte da grande narrativa da negritude no Brasil. A autora utiliza cenas de crise e de amor, de dor e de alegria, para dar voz a corpos, identidades e afetos que a sociedade muitas vezes tenta invisibilizar. É um livro que nos leva- e pode levar nossos alunos- a se inspirarem, a refletirem sobre cultura, gênero, raça e pertencimento, chamando o leitor a reconhecer e celebrar essas vidas. No contexto de nossas salas de aula, o livro oferece material potente para discutir identidade, memória e justiça social.
Ainda nessa SD sugerimos o livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada[2] Tive conhecimento sobre esse livro num curso de Formação de professores. Não me lembro o ano, mas recordo-me de ficar inquieta por não conhecer um livro que foi publicado em 1962, traduzido para 14 idiomas e eu, brasileira, baiana, nunca tinha ouvido falar. É claro que meu desassossego de alma só passou depois que li.
Fiquei impactada com o vocabulário e a linguagem fluida de uma mulher que só estudou até a antiga segunda série do Ensino Fundamental I (para nó hoje seria o terceiro ano do fundamental). Isso sem falar do impacto de saber que ela era catadora de lixo e que narra como gostava de ler livros e revistas que achava no lixo de muitas pessoas.
Esse livro traz o diário da própria Carolina Maria de Jesus, uma mulher negra, catadora de papéis, mãe de três filhos, moradora da favela do Canindé nos anos 1950. Em seus relatos, ela partilha com muito sentimento, com honestidade sua vida marcada pela fome, pela desigualdade social e pela luta diária pela sobrevivência. A linguagem simples, às vezes marcada por ortografia instável, confere veracidade à narrativa e nos aproxima da realidade que tantas vezes é escondida ou minimizada.
O livro rompe com silêncios e invisibilizações, sendo marco da literatura marginal e da afirmação de uma voz negra periférica no Brasil. Além de denúncia social, é também registro de subjetividade, desejo e dignidade em face da adversidade. Penso que esse livro serve para confrontar narrativas hegemônicas, trazer à tona o quotidiano de quem está à margem e valorizar o saber dessas vidas.
Também indico como leitura o conto Pixaim de autoria de Cristiane Sobral. Nesse texto, temos a história de uma menina negra que ama seus cabelos crespos e que tem sua paz interrompida quando uma vizinha se alia a sua própria mãe para tentar embranquece-la, retirar seus traços fenotípicos africanos por meio do alisamento do cabelo. Essa garota cresce e assume seus cabelos como são e chega com toda sua negritude em espaços de poder, como na cidade de Brasília.
Por
fim, indicamos No Seu Pescoço[3],
da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.
Esse livro traz doze contos nos quais Adichie explora temas como imigração,
desigualdade racial, choque cultural, gênero e identidade a partir da ótica de
nigerianos ou africanos no exílio ou em contato com o ocidente. A narrativa é
comovente e instigante, por vezes escrita em segunda pessoa, atribuindo ao
leitor a sensação de estar na pele da protagonista.
Ao mostrar vidas entrelaçadas entre lar e estrangeiro, visível e invisível, Adichie questiona estereótipos e a “história única” que tantas vezes se impõe à África e aos africanos. É uma obra que traz densidade literária e política, mostrando que as experiências africanas são múltiplas, complexas e cheias de nuances. Para a educação antirracista e multicultural, o livro funciona como ponte entre mundos distintos, convidando ao reconhecimento de identidades plurais.
Todos os textos aqui indicados estão parcial ou integralmente disponíveis na internet e os links para os estais estão ao longo dessa sequencia didática. Faça bom proveito, use, adapte e modifique à vontade este material.
OBJETIVOS:
§ Reconhecer e valorizar a diversidade cultural afro-brasileira e quilombola;
§ Desenvolver práticas de leitura, interpretação e produção artística e textual que expressem diferentes pontos de vista sobre a história e cultura africana e quilombola, estimulando a criatividade e a autoria dos estudantes;
§ Refletir criticamente sobre estereótipos e desigualdades raciais ainda presentes na sociedade, relacionando-os às trajetórias históricas e culturais das comunidades negras e quilombolas, de forma a promover atitudes de respeito, empatia e valorização da identidade negra;
§ TEMPO: 5 aulas (100 min cada aula)
ETAPAS:
|
Etapa |
Atividade |
Objetivo |
|
Aula 1 |
Apresentação da proposta e escolha dos textos |
Sensibilizar e despertar interesse |
|
Aula 2 |
Leitura |
Leitura silenciosa em aula |
|
Aula 3 |
Aprofundando a leitura |
Preencher ficha de leitura |
|
Aula 4 |
Produção criativa plural |
Releitura das obras: planejamento da ação |
|
Aula 5 |
Apresentação com avaliação reflexiva |
Consolidar e aplicar os aprendizados |
RECURSOS DIDÁTICOS
§ Xerox dos textos literários ou disponibilização do material em pdf por meio de aplicativo de conversa;
§ Cartolina;
§ Trechos da palestra fotocopiados;
§ Revistas, panfletos, imagens impressas;
§ Pilotos;
§ Hidrocores
§ Caderno;
§ Caneta;
§ Computadores ou celulares;
.
Aula 1- Apresentação do Projeto e Sensibilização: atividade individual
§ Apresentação da proposta de trabalho;
§ Disponibilização das obras para leitura;

Que
critério usou para escolher a obra/texto que iria ler?
Você
já conhecia algum autor/a literário/a negro/a?
Quais
palavras ou expressões encontrou no texto que você não conhecia? Procure o
significado delas.
Sugestões de obras a serem lidas:
|
Título da obra |
Autores/as |
Endereço eletrônico |
|
Histórias da Cazumbinha |
Meire Cazumba e Angie Bordas |
|
|
Itan dos mais velhos |
Rui Póvoas |
https://share.google/1jUXU3x9R62fFNkCM
|
|
No seu pescoço |
Chimamanda Adichie |
https://share.google/oMGjesz5eq3zO3X5G
|
|
Olhos D’água |
Conceição Evaristo |
https://share.google/gw8tvdGiNwRlUhuou
|
|
Pixaim |
Cristiane Sobral |
https://cristianesobral.blogspot.com/2011/01/pixaim-conto-de-cristiane-sobral.html
|
|
Quarto de despejo: diário de uma favelada |
Carolina Maria de Jesus |
https://share.google/qvEw59HrQ9W9Y6RyF
|
|
Roça é vida |
LUIZ, Viviane Marinho et al (Org.) |
https://acervo.socioambiental.org/acervo/livros/roca-e-vida
|
AULA 2- Leitura e pesquisa:
§ Leitura individual para posterior registro da leitura numa ficha;
Aula 3- Aprofundamento da leitura
§ Pesquisar sobre o autor/autora da obra lida;
§ Registro numa ficha de leitura (modelo logo a seguir) como a história, a memória, ancestralidade e representação negra aparecem no texto.
FICHA DE LEITURA
|
|
Nome do autor: |
|
|
Título do livro ou do texto lido: |
|
|
Trechos que mostram fatos históricos: |
|
|
Trechos que mostram a memória: |
|
|
Trechos que mostram a ancestralidade: |
|
|
Trechos que mostram a representação negra: |
|
|
Impressões e sentimentos sobre o que leu: |
Aula 4- Produção criativa: recontando a história por meio de diversas linguagens
§ Os alunos iniciarão em sala o planejamento de como recontarão a história lida: pode ser Poema, crônica ou conto inspirado no texto lido ou Expressão artística (desenho, cartaz, música ou performance) sobre a ancestralidade e cultura afro-brasileira.
§ Aula 5- Culminância
o Os alunos apresentação sua releitura a todos os professores envolvidos no pátio da escola;
AVALIAÇÃO:
A avaliação será formativa e contínua, considerando:
§ Participação nos momentos de leitura;
§ Capacidade de interpretação crítica do texto;
§ Qualidade dos registros;
§ Criatividade, coerência e criticidade nas produções finais;
§ Atitude cidadã de valorização da diversidade cultural e respeito às diferenças
REFERENCIAL:
ADICHIE, Chimamanda. No seu pescoço. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
BORDAS, Angie; CAZUMBA, Meire. Histórias da Cazumbinha. Salvador: Editora Ogum’s Toques Negros, 2018.
EVARISTO, Conceição. Olhos D’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
LUIZ, Viviane Marinho et al. (org.). Roça é vida. Brasília: Editora IFB, 2019.
PÓVOAS, Ruy do Carmo. Itan dos mais velhos. Ilhéus: Editus, 2004.
SOBRAL, Cristiane. Pixaim. Brasília: Editora do Autor, 2011
Nenhum comentário:
Postar um comentário